quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A inflação inescusável dos produtos da Eyeko



Muitas de vocês já devem estar sabendo do imbróglio envolvendo a Eyeko. Vários blogs já se pronunciaram a respeito. Li vários posts e comentários sobre o tema e, como o rímel da marca é meu preferido, fiquei com vontade de tecer algumas considerações sobre a questão também.

Eu comprei o rimel Big Eyes da Eyeko em fevereiro de 2010 por US$ 8. Adorei a embalagem de bisnaguinha, o efeito, não ser testado em animais, e, especialmente, o custo-benefício. Em razão da divulgação da marca em blogs, a Eyeko se popularizou, de modo que os produtos aumentaram sensivelmente de preço e o rímel passou para US$ 14. Até aí normal, lei da oferta e da procura, o preço, ainda que quase dobrado, continuava justo em comparação à concorrência.

Mais recentemente, a Eyeko resolveu fazer um "reposicionamento da marca", a.k.a. estratégia de marketeiro para enganar consumidor otário. Não mudaram quase nada na fórmula dos produtos, pelo menos nada de relevante e trocaram os desenhos da embalagem. Simples assim. O rímel agora custa US$ 19. Menos para o Brasil, para cá custa US$ 45 (chequei agora e mudaram para US$ 38).

A desculpa da Eyeko para o tratamento anti-isonômico é a de que estariam incluídos os tributos brasileiros. Fucei o site, mas não há nenhuma informação a respeito disso. De fato, existem empresas que já recolhem o imposto para você, através de courier (ex.:  Fedex). Ao simular uma compra, vi que eles se utilizam dos serviços da TNT, que realiza essas entregas expressas e faz o desembaraço aduaneiro. Como não há muita transparência por parte da Eyeko, resolvi calcular os tributos para ver se o preço batia. Eu não me incomodei muito com o aumento em razão de eventuais impostos embutidos, porque, embora ninguém goste de pagar imposto, eles são devidos, não dá para se escusar simplesmente. O que eu, de fato, não gostei, foi o reposicionamento da marca e do aumento de 8 para 19 dólares. Mas como eu vi que a maioria das pessoas impugnou especialmente a questão do preço diferenciado, preferi investigar.

Fiz uma consulta no site da Receita Federal para saber a carga tributária embutida num rímel. Não inclui o ICMS, imposto estadual, só os tributos federais. Para quem tem curiosidade, aqui no Rio a alíquota é de 26% para perfumes e cosméticos, a mesma de cigarros e armas, pasme.


Simulação do Tratamento Tributário e Administrativo das Importações
Código NCM 3304.20.10
Descrição NCM SOMBRA,DELINEADOR,LÁPIS P/ SOBRANC.,E RÍMEL
Taxa de Câmbio do Dia 10/11/2011 R$ 1,7453
Valor Aduaneiro Convertido R$46,25
Alíquota II (%) Tributo II R$ 8,33
Alíquota IPI (%) Tributo IPI R$ 12,01
Alíquota PIS (%) Tributo PIS R$ 1,75
Alíquota COFINS (%) Tributo COFINS R$ 8,20

Base de cálculo = US$ 19 + US$ 7,50 (frete) = US$ 26,50
Base de cálculo em reais, com câmbio de R$ 1,7453, de acordo com a Fazenda = R$46,25

Base de cálculo + tributos = R$ 76,54

Se em vez desse simulador você preferir o regime simplificado do Fisco, é só utilizar a alíquota de 60% - R$ 46,25 x 60% = R$ 74,00


Preço cobrado pela Eyeko, convertido com o câmbio da Fazenda (você não vai pagar com esse, mas com o usado pelo cartão de crédito) = R$ 79,41


Não bateu, apesar de os valores não se alterarem tanto assim. Mas não tem como bater, pois a base de cálculo dos tributos inclui o frete e a Eyeko já pré-fixa o valor dos produtos, independentemente do frete ser grátis ou não. Simulei a compra de 2 rímeis. O frete saiu grátis, mas o valor do rímel não diminuiu, o que teria que acontecer, já que o frete, necessariamente, está incluído na base de cálculo dos tributos. Fora que a base de cálculo tem que ser em real e o valor altera sempre, em virtude do câmbio. Os preços dos produtos da Eyeko são sempre fixos.

Eu não sei como ocorre o recolhimento dos tributos por parte das empresas de courier. Não há a menor transparência quanto a isso. Posso estar sendo injusta, mas não é estranho? Se alguém souber como funciona esse esquema, esclareça-me, por favor. Quem tem que explicar aos consumidores é a Eyeko e a empresa de courier, mas não achei nenhuma informação a respeito...

Além da falta de transparência quanto a questão do recolhimento dos tributos, a balela de reposicionamento da marca não me convence. O aumento de preços envolve uma questão meramente objetiva. Até bem pouco tempo atrás o rímel custava 8 dólares. Se não houve alteração substancial na fórmula do produto nem na embalagem, que continua sendo a mesma, só mudou o desenho impresso, não se agregou valor ao produto. Sendo assim, nada justifica o superfaturamento em mais de 100%, de 8 para 19 dólares.


A Eyeko, acredito eu, está ignorando suas atuais consumidoras para abarcar quem teoricamente tem maior poder aquisitivo, ou seja, mulheres mais velhas, que não gostam de mangá. Se você não liga pra isso e é consumidora fiel só porque os produtos são bons, azar o seu, vai pagar mais caro porque a Eyeko achou melhor.

O Big Eyes é meu rímel preferido, mas nenhum cosmético é insubstituível, por mais que o marketing das empresas tentem te convencer do contrário. A atitude da Eyeko é de falta de respeito para com as consumidoras, então não compro mais, não sou trouxa.

Se a marca quer mudar de público e em razão disso alterou o design para realizar o tal reposicionamento, acho que se equivocou, porque essa mudança de design, como já afirmei, não agregou valor aos produtos. Se a embalagens passasem a ser de metal, luxuosas, com papel reciclado ou de plástico biodegradável feito de milho e as fórmulas virassem hipoalergênicas, sem componentes sintéticos, parabenos, propilenoglicol etc, com altas pesquisas tecnológicas, se tudo fosse fabricado na Inglaterra em detrimento de Taiwan, onde não se sabe se há leis trabalhistas e ambientais, daria pra entender. E a origem das substâncias químicas que entram na composição do produto? São devidamente refinadas, puras, sem a contaminação de metais pesados e outros tóxicos? Não sei se em Taiwan existe algum órgão que regulamente a segurança dos cosméticos, como uma Anvisa, (que já não é lá essas coisas) duvido muito.

A meu ver foi feita apenas uma “maquiagem” nas embalagens pra justificar a vontade de lucrar em excesso. Malandragem que me fez tomar antipatia pela Eyeko. Big Eyes para mim, agora, só os de consumidora consciente.

P.S.: sobre preços de cosméticos recomendo os posts do Makeupalooza e Amorices.

P.S.2: vi no blog da Marcela que quando a mercadoria chega ao Brasil e é taxada, a empresa de courier entra em contato, diz o valor dos tributos e eles são pagos mediante apresentação da documentação da Receita Federal no momento da entrega do pacote. Ou seja, essa questão da Eyeko tá ainda mais estranha :/

P.S.3: a Instrução Normativa SRF nº 57/96, que trata do despacho aduaneiro por empresas de courier também não esclarece muita coisa, só que o transportador deve te dar um documento esclarecendo e comprovando os tributos recolhidos e que é utilizado o regime de tributação simplificada, ou seja, é aquele esquema de 60%, então o rímel da Eyeko teria que sair por R$ 74,00. Foi o que consegui pesquisar :(

Foto: Worldstart

5 comentários:

Clube da Nécessaire disse...

Sabe o que mais me revolta Camila?
É ver gente que faz "sacolão" e traz máscara Maybelline por R$80,00, R$90,00! Acredite, eu já vi! Pelo menos um preço justo, já que não podemos contar com a justiça nos impostos brasileiros.
Outra coisa: sobre a taxação de compras no exterior. Na realidade nem isso! Mandei para uma amiga um item de presente que não foi nem $5,00 e eles taxaram ela com R$60,00! Pode isso? Mesmo de pessoa física para pessoa física?! Pena que eu não tinha o recibo para enviar para ela poder provar lá!
Cada coisa né que a gente tem que aguentar...

Beijão e excelente domingo para vc!

Camila disse...

Não, está errado! Há isenção de tributos federais para importação de até US$ 50 de pessoa física para pessoa física. Sua amiga deveria entrar no Juizado Especial Federal para questionar isso e pedir a repetição de indébito. Não precisa de advogado e é gratuito. É chato, mas faz precedente que pode ajudar todo mundo depois. Aqui no Rio também há isenção para ICMS nos casos de isenção federal. Ela não deveria nem ter pago, melhor ter questionado quando foi receber o pacote. Bjs!

Anônimo disse...

Camila,
aqui em São Paulo, o ICMS padrão é de 18%, com as devidas exceções. Para itens de maquiagem é de 25%, já que uma das questões que afeta a alíquota é justamente a essencialidade do produto em questão.

De fato, quando a pessoa física está importando, o imposto é simplificado e fica em 60%. O que já inclui o ICMS, mas alguns estados preferem cobrá-lo à parte, sabia? Eu não sei o que diz a lei nestes casos, se há alguma brecha na lei federal que permita aos Estados cobrar o ICMS à parte, conforme sua vontade.

Para pessoa jurídica, a importação de produtos cosméticos costuma ter uma tributação de cerca de 150% - e este é um cálculo aproximado para frete marítimo, pode haver uma variação. Fato é que fica mais de 100%, mas também inclui os impostos que os produtos nacionais pagariam.

Fica tudo isso porque os impostos são aplicados usando-se uma fórmula cabeluda em que a base de cálculo é toda feita com um cascateamento assustador de imposto sobre imposto.

No caso dos couriers, além dos 60%, a gente ainda paga a eles a taxa de desembaraço aduaneiro. Outro dia, me enviaram um pacote do Reino Unido, com valor simbólico de 5 libras. Era um CD com documentos. E eu tive que pagar mais de 40 reais para receber, acredita?

No caso Eyeko, nem precisa de tanta matemática. Eles simplesmente aumentaram o preço porque queriam faturar mais. Eu sinceramente nunca entendi o hype em torno da marca. Acho a estética feia - e nem é por uma questão de afinidade e idade, é porque acho feia mesmo - e acho os produtos horríveis. A tal da Big Fat Eyes fez nada nos meus cílios.

Fora que aquele selinho de Embaixadora e blablabla - ah tudo isso me levou a desenvolver uma aversão pela Eyeko antes dessa palhaçada do aumento de preços.

Aumenta porque acha que pode. Como a Contém 1g, que tem aumentado vertiginosamente seus preços. Enquanto eles acham quem compre...

Visão curta, mas é a que reina por aí, não só em terras tupiniquins.

beijos,

Renata

Camila disse...

Renata, a alíquota simplificada de 60% engloba apenas os tributos federais, até onde sei, para facilitar a vida da pessoa física que compra pela internet. Foi o que dei a entender das leis específicas que li, mas não sou especialista em tributário. Os estados não se mexem para fazer convênio com os Correios ou algo parecido, então na prática acaba que as pessoas não pagam ICMS, pelo menos é o que ocorre aqui no Rio. Fui taxada uma vez numa bolsa que importei da Inglaterra e não paguei ICMS.

O rímel Big Eyes realmente ficou bom nos meus cílios, mas acredito que nenhum produto seja insubstituível, então logo arranjarei outro. Não caio nesse papo furado de reposicionamento, prefiro marcas que respeitem minha inteligência. bjs

Fabiola Paschoal disse...

Penso exatamente como vc! Amo a Big Eyes e paguei feliz o preço dela quanto custa $9. Mas não pago o absurdo que estão cobrando agora de jeito algum, até pq não acho que a linha de maquiagem deles seja boa: o que presta mesmo é essa máscara, e olhe lá, não gostei de mais nada que usei. Ou seja, estão cobrando preço de marca de luxo por uma marca que nem tem tanta tradição/qualidade assim. Boicoto mesmo, talvez quando voltarem a praticar preços justos eu volte a comprar!

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...