quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O tabu das fast fashion
Um professor meu sempre dizia: "leiam tudo, de bulas de remédio a revistas pornográficas". Concordo absolutamente. Sempre tive esse tipo de atitude, mas ao ouvir isso na faculdade tive certeza de estar no caminho certo. Conhecimento a respeito dos mais variados temas e personalidades faz com que você tenha uma visão panorâmica, que te auxilia a pensar sistematicamente e aprimorar seu senso crítico. Em outras palavras: por isso que eu leio todos os tipos de blogs, sites e publicações de moda, os que eu concordo e os que eu não concordo. Alguma coisa sempre se aproveita.
Mesmo depois do episódio Zara, as blogueiras continuam elogiando a marca e fazendo apologia à sua estratégia de ctrl c + ctrl v das semanas de moda internacionais. Não foi surpresa, já esperava por isso. Entretanto reparei que, não só os blogs, mas ninguém chega a questionar o sistema de fast fashion. Aliás, para não dizer ninguém, li na entrevista que o estilista Philip Lim deu na Elle deste mês que ele não gostava. A opinião dele ilustra o início desse post. Apesar de ser um ótimo argumento de autoridade, sua posição é quase nada comparada às das "formadoras de opinião" que não têm opinião (esse é outro assunto que rende, deixarei para um próximo post).
Quem tem um pouco mais de conhecimento e visão sabe que a moda não é simplesmente as roupas que as pessoas vestem, mas envolve um contexto econômico, político e sociológico. É leviandade achar que discutir moda é perder tempo com questões fúteis. Em razão disso me pergunto: "já que aqueles que lidam diretamente com a moda não criticam o fast fashion, porque não o fazem os colunistas, sociólogos, empreendedores?" É tabu? Tudo o que dá muito dinheiro sem legitimidade é tabu. Ninguém quer entrar em briga de cachorro grande.
Eu já li, pelo menos, 2 textos em jornais falando do espírito empreendedor e visionário de Alexandre Birman ao vislumbrar a fast fashion Schutz. Sim, a Schutz pode não ser barata, mas é tida como fast fashion pelos seus administradores. Se você for analisar é mesmo. Tudo "inspirado", tal qual a irmã Arezzo.
Não vou entrar propriamente no mérito das inspirações e cópias, pois esse tema é bastante sofisticado e requer análise técnica. Talvez escreva sobre isso um dia. Falarei sobre o que mais diretamente diz respeito ao consumidor e ser humano em geral: impacto ambiental, sentido de vida, solidariedade e dignidade humana.
Ao explicar o conceito de fast fashion para algum desavisado, você poderia lhe informar que se trata de uma maneira de se levar ao grande público peças com informação de moda, baseadas nas tendências vistas nos grandes desfiles internacionais, quase que em tempo real, com enorme variedade, tudo isso por um preço bastante razoável. Nossa! Parece ótimo! Quem não iria gostar disso?
Antes de ter a real percepção do fast fashion eu cheguei a pensar que finalmente os menos abastados iriam poder comprar roupas legais. Pobre, só porque é pobre tem que se vestir mal? Até bem pouco tempo atrás eu passava em frente à C&A e à Renner e só via coisas pavorosas. De vez em quando eu comprava umas calcinhas e olhe lá! O que custava arranjar um estilista decente e fazer peças mais simples?
Até que fui notando a gritante melhora no design das mercadorias e acreditei que estavam democratizando a moda. Inclusão social! Que barato! Que engodo! Vestidos por R$ 100,00? Lógico que é mais barato que nas demais lojas, mas pobre que é pobre não tem dinheiro pra comprar isso. Ou seja, o tal do fast fashion veio para atingir as classes média e média-baixa principalmente, que têm o recalque de não ter grana para comprar em grifes de luxo. Pobre não faz ideia do que seja Hermés ou Prada. Talvez ele conheça Armani, porque os jogadores de futebol adoram. Para ele, comprar uma camiseta falsificada escrita Armani está de bom tamanho, para ele ficar igual ao ídolo. Quanto às mulheres, bastam encontrar algo semelhante ao que usa a madame da novela. O ônus, então, está na classe média.
Nós da classe média finalmente teríamos a chance de usar os passarinhos da Miu Miu, a bolsa box da Céline e os vestidinhos ladylike da Louis Vuitton! Poxa, chega a ser meio patético. Superficialmente falando, a inspiração, por si só, é inerente à moda, faz parte. Quase todas as grifes brasileiras levam em consideração os desfiles internacionais, razão pela qual eu acredito que ainda não haja uma moda essencialmente brasileira. A questão não é essa. Ridículo é ficar toda imponente porque está com a bolsa pseudo-Birkin comprada na 284. É aquela velha questão do ter x ser. Mas de todos os males, talvez esse seja o menor.
Os problemas maiores mesmo são aqueles que envolvem o impacto de tanto consumo no meio ambiente e nas relações de trabalho, que eu, de certa forma, falei aqui. Para produzir tanto, haja algodão (+ fertilizantes poluidores, + agrotóxicos, + super gasto de água para irrigar a plantação), haja gasolina para transportar as peças, etc. Para produzir tão rápido, só explorando os outros (trabalho escravo...). Enfim, aqui tudo que a gente já sabe. Ah, e como parte das roupas é de qualidade questionável (alô, Primark), após a modinha as pessoas não doam para caridade, mas jogam fora.
Será que vale mais a pena usar a modinha descartável ou investir em peças atemporais e de qualidade? Certamente que é mais difícil se diferenciar na multidão com menos peças, mais tradicionais, mas isso revelará seu verdadeiro estilo e personalidade. Está lançado o desafio!
Suzy Menkes afirmou recentemente que o futuro será das grifes médias. A conferir. Não se esqueçam que há também os novos estilistas, que trabalham de forma independente, com produção pequena e quase exclusiva, preços bem em conta e sem exploração. Eu apoio!
Para quem quiser saber mais sobre o tema, recomendo o vídeo a seguir, extremamente elucidativo, simples e direto. Há um post complementar bem interessante no Oficina de Estilo também.
Temas:
consumo consciente,
estilo,
moda
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Um comentário:
Camila,
Enquanto as pessoas são estimuladas a achar que é o "ter"que as define e posiciona na sociedade e no mundo, em vez do "ser", nós vamos continuar dando combustível para fast fashion e todas as derivadas.
beijos!
Renata
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