sábado, 28 de janeiro de 2012

Formadores de opinião é o novo "artistas e intelectuais"



Quando a Renata escreveu a respeito do fim das bases, decretado pelos mais prestigiados maquiadores, me animei para terminar de escrever este post, que havia começado quando li este artigo no Estadão sobre algumas blogueiras como sendo as "novas formadoras de opinião".

Há algum tempo tenho visto esse termo, "formadores de opinião", ser largamente utilizado em jornais e revistas. Em jornais, principalmente. Acredito que seja o novo "artistas e intelectuais", chavão há muito querido por jornalistas. Na realidade, ambos são reles argumentos de autoridade falaciosos. Funciona assim: para te convencer de algo, o autor do texto afirma que determinada coisa é must have por ser utilizada por formadores de opinião, ou que determinado bar é hype por frequentado por artistas e intelectuais.

A fórmula é a seguinte: "X disse que P; logo, P", sendo X uma pessoa ou grupo de pessoas tidos como autoridade e P uma afirmação qualquer. O argumento para te convencer é simplesmente a opinião ou pretensa opinião de alguém que teria alguma credibilidade.

O autor foge do assunto, já que não são apresentados argumentos lógicos de convencimento, mas simplesmente o pretenso prestígio de determinada pessoa, o que não quer dizer absolutamente nada. Por isso é uma falácia, já que as razões apresentadas não sustentam o que se afirma, em virtude de inexistência de lógica entre a premissa e a conclusão.

Na prática:

“Não é uma tendência, é um statement”, acredita Fabiana Gomes, maquiadora sênior da MAC, a respeito do fim da base.

A Vogue utilizou o argumento de uma autoridade para te convencer que a base acabou. Quem é a autoridade? A maquiadora sênior da MAC. Por que ela seria uma autoridade? Porque ela representa uma grande marca de maquiagem. Ora, mas a MAC produz uma série de bases, porque sua representante iria contra os interesses de quem paga seu salário? Pronto, verifica-se o despautério da proposição. Por trás disso o que dá para entender? A maquiadora pretendia promover o BB Cream da MAC, então determinou que não se usa mais base para que todas comprassem o novo produto. Parte iria gostar, outra parte não iria ficar satisfeita e voltaria para as bases. Com o tempo ninguém iria lembrar mais da asneira dita e tudo voltaria a ser como antes, mas com o BB Cream devidamente inserido no mercado.

Este foi um exemplo simplório para demonstrar a impropriedade na larga utilização de argumentos de autoridade como "formadores de opinião" e "artistas e intelectuais" pela mídia. Eu sempre desconfio de textos que começam a falar de algo puxando o bordão dos artistas e intelectuais. Jornalistas adoram o termo e às vezes ele é usado como marketing de produtos. Exemplo: a Moleskine se gaba de seus caderninhos terem sido usados por gente como Henry Matisse, Vincent Van Gogh, Pablo Picasso e Ernest Hemingway, dentre outros. Antes de analisar a falácia, lembro do que havia dito aqui, que o Moleskine não possui relação direta com o caderninho original, usado pelos artistas mencionados. Na verdade, esses caderninhos já eram fabricados à mão por pequenos artesãos franceses desde o século XIX. Não havia propriamente uma marca. Em 1997, uma empresa italiana resolveu registrar o nome Moleskine e produzir em massa os bloquinhos de notas, ou seja, muito tempo depois da morte dos renomados artistas.

Agora a falácia: Hemingway usava Moleskine, logo, Moleskine é bom. Bom para quê? Para escrever? Você acha que vai escrever tão bem e ter ideias tão geniais quanto Hemingway só porque usa o tipo de caderno que ele usava? Você acha que suas ideias são tão dignas de nota quanto as de Hemingway? A Moleskine te faz crer nisso, ela infere que quem usa seus cadernos é tão bom quanto Hemingway. A pretensão é tão grande que chega a ser piada.

Digamos que o formato de caderno tenha mérito a respeito de anotar brilhantes ideias para um texto. Por que tem que ser da Moleskine, não pode ser de outra marca concorrente que tenha o mesmo tipo de produto. Ah, porque Hemingway usava "Moleskine". Bom, mentira, mas entendem?

E os formadores de opinião? Formador de opinião seria uma pessoa com capacidade de influenciar e modificar a opinião de outras pessoas nos mais diversos campos, como moda, política, música, filosofia. Por isso os autores andam fascinados com essa expressão, já que ela é muito mais abrangente que "artistas e intelectuais". Em relação a objetos de consumo, especialmente na área da moda, o Estadão decretou que certas blogueiras são as novas formadoras de opinião.

Não há dúvidas que elas influenciam muitas meninas. O perigo está em acreditar que elas são autoridades com credibilidade naquilo que dizem. Ah, a fulana diz que é bom, então vou comprar. Ela ganha dinheiro para dizer isso e muitas não percebem. Ainda que a fulana entenda mesmo daquilo que esteja falando, não acredite de cara, questione, veja se é o adequado para você. Com o bombardeio de informações através de diversas mídias, há muita coisa errada e equivocada sendo dita, de modo que se torna ainda mais importante filtrar aquilo que tenha alguma serventia. Não se deixe influenciar assim tão facilmente. Quem tem que ser formador de opinião é você.

Foto: Worldstart

2 comentários:

Cora disse...

Muito bom seu blog. Estou adorando!

Camila disse...

Obrigada, volte sempre! :)

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